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cedofeita aprés la lettre

os amantes são "alterofilistas"

“Cedofeita après la Lettre”, depois do sentido, tem início com a descoberta, por mim, da Igreja de São Martinho da Cedofeita. Um sólido e conciso templo em pedra, românico, de nave única erguida, segundo informa a pedra do tímpano, no século VI pelo rei suevo Teodomiro. Marca minha experiência de chegada em terras alhures, de uma nova experiência do tempo e do espaço. De um já quase velho corpo dando seu testemunho ao se debater contra absoluto e se questionar: o que pode o corpo quando jogado contra uma inescrutável rocha forjada a “fogo frio”? O que pode o corpo contra o real? Esse trabalho, inicialmente, seria uma performance e uma escultura. A chegada do covid-19 obrigou-me a adaptar essa ideia inicial e transformá-la em pequenos filmes de apartamento, filmes-contos que serão adicionados aos poucos outros filmes até que se forme um filme-livro de maior duração.

Os dois primeiros filmes (contos) propõem pensar o amor como encontro da diferença em tempos de quarentena. O vírus é tão somente um ser natural, mas pode ele torna-se político na medida em que serve a política de ordenamento dos corpos? Eis a condição paradoxal: na medida que o vírus se politiza, mais ele nos leva rumo ao uma vida puramente biológica, em que existimos apenas para sobreviver. Diante do que estamos passando vale a pena perguntar o que nós estamos efetivamente perdendo -- o dinheiro? As liberdades individuais? Talvez o mais importante, a capacidade de reconhecimento do outro.

Entretanto, quando para alguns da Europa o vírus nos condena a “vida nua” ou para outros preconizam uma crise do capitalismo, em alguns outros lugares, como no Brasil, onde a “vida nua” já é preponderante, sobreviver deve passar pela reinvenção do amor como o mais elementar encontro do outro. Neste espetáculo narcísico do mundo, talvez uma utopia que ainda vale a pena seja redescobrir duração da vida como algo mais além da natureza. Com diz Alain Badiou, “o amor é uma reinvenção da vida. Reinventar o amor é reinventar essa reinvenção”. Mas os novos “arquitetos da destruição” querem uma segunda chance. Veem no vírus a possibilidade de criar vida a partir da ruína do que acham que é velho e obsoleto. E o que não é para eles? Mas o “novo” desses arquitetos não faz sentido porque estão fora do tempo ao possuírem no seu interior a eternidade da morte. Eles não conseguem perceber que recriar a vida é também recriar o amor como experiência radical da alteridade.

O amor como exercício da alteridade é o tema desse segundo filminho tosco de apartamento em tempos de coronavírus. Diante do que estamos passando vale a pena perguntar o que estamos perdendo: o dinheiro? As liberdades individuais? Talvez o mais importante, a capacidade de reconhecimento do outro.